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Afoxé Ilê Omo Dadá, 43 anos no terreiro e na Avenida

Atualizado: 27 de fev.

Casa de candomblé Ile Iya Mi Osun Muiywà entrelaça com a história do afoxé na cidade de São Paulo

 

Reportagem e edição Mariana Vilela




foto Lucas Martins


É possível que você já tenha ouvido falar da palavra Afoxé ou afroxé como um ritmo negro e brasileiro. Mas você conhece toda a dimensão espiritual/cultural e religiosa do afoxé? Eu confesso que não sabia. Tive a oportunidade de desvendar e conhecer a beleza e a potência deste ritmo que é inseparável do candomblé através da Casa Ile Omo Dadá, que há 44 anos mantém a casa de candomblé e há 43 abre o desfile das Escolas de Samba de São Paulo.


De acordo com a tese de pós-graduação da Unesp - A Dança Negra em São Paulo, dança afro, carnavais e outros palcos, apresentada por Caroline Nicácio da Rocha, a palavra afoxé é uma junção de palavras de língua yorubá A=Prefixo nominal, Fo= Verbo = pronunciar, dizer, Xé= realizar-se, verificar-se. Literalmente, a expressão afoxé significa: a enunciação que faz acontecer, ou, numa tradução mais poética, o enunciado que faz acontecer. É é um ritmo oriundo da África, especialmente da região da Nigéria.



Xequerê ou agbê, instrumento do afoxé

José Mauro de Jesus, escritor e pesquisador, babá Mauro, babalorixá que foi homenageado nesse ano junto com a mãe yalorixá Wanda de Oxum pelo Ilê Omo Dadá, me explicou que o afoxé tem início junto com o movimento afrorreligioso que se expande por volta de 1885 no Brasil, primeiramente na Bahia. É próprio e oriundo do candomblé, tendo o ritmo ijexá, que é praticamente um ritmo de Oxum, com uma percussão específica que no Brasil vem através do instrumento Xequerê.


O xequerê, ou Abê (agbê) em yorubá, é uma cabaça revestida por miçangas que vão para um lado e para o outro. Na cultura yorubá, é bastante característico as mulheres tocarem a cabaça, pois a cabaça lembra o ventre feminino. “A cabaça alude a este poder de vida, do feto que vibra no ventre da mãe. É uma forma de enaltecer a importância da mulher na sociedade”, conta ele.  


O afoxé também simboliza alegria e renascimento. “Com advento do carnaval no Brasil e os festivais na África, a gente vem trazer essa alegria para as ruas, inclusive em momentos nefastos, afinal, depois que passa o carnaval, todos vamos vivenciar a lida do labor”.


Babá Mauro de Oxum foi homenageado pelo Ilê Omo Dadá em 2024 (foto Mariana Vilela)

Ao todo, são mais de 2000 pessoas que frequentam o afoxé, em casas diversas também com raízes diversas: No caso do Ile Omo Dadá, o afoxé vem da raíz Ketu.  


Adeptos oriundos da umbanda


Segundo documento sobre a história do Ilê Omo Dadá, nas primeiras décadas de constituição do candomblé em São Paulo, os adeptos eram geralmente oriundos da umbanda. A fundadora do Ile Iya Mi Osun Muiywà (a casa de candomblé que integrou-se ao afoxé em 1980), Mãe Isabel de Omulu, ou Isabel Maria da Conceição de Oliveira, é um caso típico desse fenômeno.


Nascida na cidade de Guariba (SP) em 1914, migrou para a capital paulista para ganhar a vida, estabelecendo-se no bairro da Casa Verde, que era um verdadeiro território negro na cidade de São Paulo na época. Viúva precocemente, passou a sustentar sozinha seus seis filhos, trabalhando como empregada doméstica. Proveniente de uma família católica, logo aderiu às práticas umbandistas na nova cidade e fundou o terreiro de umbanda São Lázaro em 1956. Alguns anos depois, a casa se tornou de candomblé.


Mãe Wanda de Oxum, yalorixá do Ilê Axé Omo Dadá desfila no sambódromo (fotoLucasMartins)

Sua filha, a Iya Wanda D’oxum (mãe Wanda de Oxum) é a atual Iyalorixá do Ilê Iya Mi Osun Muiywa, hoje presidente, intérprete e fundadora do Afoxé Ilê Omo Dadá, também conhecido como Filhos da Coroa de Dada.


Mãe Wanda funda o Afoxé Ilê Omo Dadá junto com o seu marido, O Ogã Gilberto de Exu, a pessoa fundamental para trazer a cultura do afoxé para a casa de candomblé Ilê Iya Mi Osun Muiywa e consequentemente para São Paulo, como conta o jornalista Cosme Aparecido Felix, proprietário e idealizador da Revista Afrobrasileira, que tem 33 anos de atividade.


Ele relembra que junto da mãe Wanda de Oxum, é muito importante citar o nome de Gilberto, a pessoa que traz todos os preceitos da Bahia e da África para criar o afoxé em São Paulo. “ Ele era um pesquisador e também articulista e consultor de assuntos afro-brasileiro para diversos órgãos internacionais, pesquisador da tradição yorubá. Foi responsável pelo Congresso Internacional na África que fez uma grande ligação da religiosidade daqui com a tradição africana”, diz.  Ogã Gilberto foi esposo da Mãe Wanda, e faleceu em 2021, por complicações pela Covid.


A mãe Wanda, além de Ialorixá, também é designer de roupas de candomblé e africanas, e criou a primeira marca especializada nesse tipo de roupas, a Fetiche Afro Designer instalada na Galeria do Rock, nos anos 90. Também é a responsável pelos modelos das roupas das pessoas participantes do desfile no sambódromo e das festas da casa.


Babá Mauro conta que que Wanda de Oxum é uma pessoa muito importante da sociedade, iniciada no terreiro do seu Joãozinho da Golmeia, um dos líderes do candomblé mais importantes do Brasil.


“Wanda é uma mulher preta, militante, e foi uma das pioneiras do afoxé na cidade de São Paulo, assim como o samba nasce nos fundos da casa da tia Ciata no Rio de Janeiro. Mãe Wanda é uma espécie de Tia Ciata do Afoxé!”, diz Babá Mauro

Desfilando na avenida com espiritualidade


Praticamente desde que foi formado, o Ilê Omo Dadá desfila na Avenida. São 43 anos que a casa participa da festa, apenas um ano em que deixou de desfilar, sempre abrindo o segundo dia das escolas de Samba.


Mãe Wanda conta que apesar do desfilar na Avenida, o Ilê Omo Dadá nunca aderiu à linguagem de Escola de Samba. “Fazemos questão de usar a nossa linguagem. Nós não temos harmonia nem os puxadores de samba. A gente tem os olukorim, que são as pessoas que cantam com a finalidade de homenagear os orixás”, diz ela.


A homenageada do desfile de 2024 foi orixá Oxum

A cada ano é homenageado um orixá diferente, sempre seguindo a ordem do candomblé. Nesse ano, a homenageada foi Oxum. Tanto Babá Mauro quanto mãe Wanda são de Oxum, e a homenageada do ano de 2025 será a orixá Iansã. Outras casas de afoxé se uniram também ao desfile, como o Afoxé Omo Odé, a fim de fortalecer o ritual.  


Sempre antes de iniciar o desfile, na concentração do terreiro, é feito o sacrifício e a oferenda a Exu, tanto o Exu da casa quanto o Exu da rua, a fim de que tudo ocorra de forma tranquila durante o desfile e os três dias de carnaval.


Mãe Wanda lembra que já foi bastante complicado participar da festa do carnaval. “Nos anos 70, por exemplo, tudo era muito mais perigoso. Era na Avenida Tiradentes, e parecia que as pessoas deixavam pra resolver o problema do ano todo lá. Era um tiroteio, uma bagunça, você não tem noção”, relembra.


Ela acredita que a participação do afoxé no carnaval trouxe calmaria e uma dimensão espiritual para a festa.


“Você querendo acreditar ou não, a gente percebeu a mudança. Então pelo menos tenho comigo que não importa a discriminação, a falta de conhecimento. Dentro do carnaval a gente sabe o nosso papel”, conta mãe Wanda

Momento político das religiões afro-brasileiras


É um momento melhor para as religiões afro-brasileiras no Brasil? Para o Babá Mauro, a política vigente influencia muito na aceitação e abertura para a diversidade religiosa e manifestação das religiões de matrizes africanas. “Se a gente tem uma liderança que não coaduna minimamente para nós, fica tudo mais complicado. Você sabe que o ultimo governo foi muito complicado para ao povo preto. Tudo o que é da cultura preta ele odiava, até o homem preto ele botou na Fundação Palmares odiava o povo preto e as matrizes africanas. Porisso o momento vai depender do momento que está em voga, é importante e sério isso”,  aponta.


Ele acredita que a gestão do novo presidente favorece as religiões de matrizes africanas no sentido de compreender que o estado é laico realmente. “E aí não importa se é judeu, se é católico, se é testemunha de jeová, se é Kardec, ele respeita a diversidade religiosa”, diz.


Ele lembra da ocasião da morte da mãe Bernadete, Yalorixá influente na Bahia, que foi assassinada após entrar em conflito com interesses do tráfico de drogas no território. “Todo terreiro é perseguido, pelos vizinhos, pela empresa de luz quando chega, pela empresa da água, quando a polícia bate, com denúncias anônimas. Nós sempre somos perseguidos. Aí eu tenho que explicar, senhor aqui é um espaço com CNPJ. Aqui é uma Instituição, não é permitida a sua entrada muito menos interromper o meu culto”, delata.


“Eu tenho que mostrar o artigo quinto, que determina que ´é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias´”, reitera.
jornalista Cosme Felix, da Tribuna Afro-brasileira

Além disso, constitui crime a prática de discriminação ou preconceito contra religiões, prevendo pena de reclusão de 1 a 3 anos, além de multa.


Já para o jornalista Cosme Félix, da Tribuna Afrobrasileira, dentro do contexto histórico, não há dúvidas que vivenciamos um momento mais promissor para as religiões de matrizes africanas.


“Agora precisamos nos unir e organizar melhor para criarmos um projeto afro-brasileiro mais fortalecido”, diz. Ele acredita que uma ligação e uma abordagem mais ampla pode auxiliar no fortalecimento do movimento.






colaborou com a matéria : Produtora Aline Lopes

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