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FILBo: uma feira que organiza o mundo pelos livros — e nos reorganiza por dentro

por Henrique André, direto de Bogotá




A Feira Internacional do Livro de Bogotá é, antes de tudo, uma experiência de escala. Gigante, diversa, pulsante — mas, curiosamente, acolhedora. Não é apenas o tamanho físico que impressiona, mas a inteligência por trás da sua organização. Em tempos em que grandes eventos culturais frequentemente se tornam labirintos caóticos, a FILBo se destaca por algo simples e poderoso: ela pensa no visitante.


Mas antes mesmo de entrar nos pavilhões, é impossível não falar da cidade que abriga tudo isso. Bogotá é uma cidade bonita, de contrastes marcantes, onde as montanhas parecem vigiar cada movimento urbano. Como toda grande metrópole latino-americana, enfrenta seus desafios sociais — desigualdades, tensões, complexidades que não podem ser ignoradas. Ainda assim, o que mais fica é a força do seu povo: acolhedor, generoso, próximo. Há algo de muito familiar para quem vem do Brasil. Nos gestos, no jeito de conversar, no riso fácil e na resistência cotidiana, há uma semelhança que aproxima e cria pontes quase imediatas.


Dentro da feira, essa sensação de encontro se intensifica. Os pavilhões são organizados de forma setorial, o que parece um detalhe logístico, mas na prática transforma completamente a experiência. Grandes editoras não são colocadas em disputa direta com editoras independentes; ao contrário, cada uma ocupa seu espaço com dignidade e visibilidade. Há um respeito implícito à diversidade do ecossistema editorial. O mesmo vale para a presença de áreas destinadas a brinquedos e experiências lúdicas: elas existem, são vibrantes, mas não competem com os livros. Há um cuidado evidente para que o livro permaneça no centro — sem sufocar outras formas de interação.


Caminhar pela feira é também atravessar geografias. É bonito — e simbólico — ver estandes de países como Venezuela, Equador, Chile, México, Espenha e até Portugal ocupando seus lugares com identidade, cor e presença. Cada espaço carrega um pedaço de mundo, uma narrativa própria, uma estética particular. É um convite ao diálogo entre culturas que compartilham histórias, tensões e afetos.

E é justamente nesse ponto que surge uma ausência incômoda: o Brasil.


Sentir falta do Brasil na FILBo não é apenas notar a ausência de um estande. É perceber um distanciamento histórico e cultural que ainda persiste. O Brasil, muitas vezes, não se reconhece como parte da América Latina. A barreira linguística — o português cercado por países hispanofalantes — é frequentemente usada como justificativa, mas talvez seja mais um sintoma do que uma causa. Há uma riqueza imensa no intercâmbio entre países latino-americanos que ainda exploramos pouco: nas narrativas, nas ilustrações, nas formas de contar e de imaginar o mundo.


Estar na FILBo é entender, na prática, o quanto essa troca é potente. No meu percurso pessoal pela feira, fui profundamente atravessado pelas editoras independentes, especialmente aquelas voltadas à literatura ilustrada para infâncias. Há um cuidado impressionante com o projeto gráfico, uma atenção quase artesanal à materialidade do livro. Texturas, papéis, cores, formatos — cada detalhe parece pensado como parte da narrativa. Não são apenas livros: são objetos de experiência, convites sensoriais à leitura.


E então vem o impacto da cena dos quadrinhos independentes. Ali, pulsa uma outra camada de criação: artistas que experimentam linguagens, misturam técnicas, incorporam tecnologia e produzem textos que desafiam, emocionam e provocam. É um território de liberdade criativa, onde o risco é bem-vindo e a originalidade é regra. O que se vê são talentos múltiplos, dialogando com questões contemporâneas sem abrir mão da inventividade estética.

Saí da FILBo com uma sensação difícil de traduzir — uma mistura de encantamento, inquietação e esperança. Encantamento pela potência do que vi; inquietação pela ausência de conexões que ainda podemos construir; e esperança de que encontros como esse possam, aos poucos, redesenhar os mapas culturais que insistimos em fragmentar.


A FILBo não é só uma feira de livros. É um espaço onde o mundo se organiza em histórias — e onde a gente percebe que ainda há muitas histórias que precisamos contar juntos.


fotos Henrique André, Filbo 2026



Henrique André é escritor, designer, ilustrador e editor, além de pesquisador de Afrofuturismo. Autor dos livros Marminino, o mundo de OciKomo, Afrofuturo - Ancestral do Amanhã, entre outros.


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