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Futurismo Ancestral: jovens artistas indígenas reinventam o amanhã na América do Sul

Atualizado: há 1 dia

por Henrique André


série Afrofuturismo



Por muito tempo, fomos ensinados a imaginar o futuro como um rompimento absoluto com o passado. A ideia de progresso construída pela lógica ocidental quase sempre apontou para um caminho de aceleração, apagamento de tradições e distanciamento das ancestralidades. Nesse modelo, modernidade e memória pareciam incompatíveis.


Mas há movimentos culturais, artísticos e filosóficos propondo outro caminho.

O Futurismo Ancestral nasce justamente da necessidade de imaginar futuros possíveis sem abrir mão das raízes, dos saberes tradicionais e das memórias coletivas. Mais do que uma estética, ele é uma forma de pensar o mundo. Uma perspectiva que entende que o amanhã pode — e talvez precise — ser construído em diálogo profundo com os conhecimentos ancestrais dos povos indígenas, africanos e afrodiaspóricos da América do Sul.


No Brasil, esse pensamento ganha força a partir das reflexões de intelectuais indígenas e negros que há décadas questionam os modelos de desenvolvimento impostos pela colonialidade.


Entre esses nomes, é impossível não destacar Ailton Krenak, cuja obra e atuação política ajudaram a reposicionar os debates sobre natureza, humanidade e futuro. Krenak nos provoca a pensar um amanhã menos baseado no consumo e mais conectado à coletividade, ao território e à preservação da vida.


Outro nome fundamental é Daniel Munduruku, que através da literatura, da educação e de sua trajetória acadêmica constrói pontes entre saberes originários e novas gerações. Munduruku fala sobre a circularidade do tempo, sobre memória como continuidade e sobre a importância das narrativas indígenas na construção de outros imaginários para o futuro.


Mas o futurismo ancestral não vive apenas nos livros teóricos ou nos espaços institucionais. Ele pulsa fortemente na produção de jovens artistas contemporâneos que vêm transformando arte em ferramenta de disputa de imaginário.


Na música, nomes como Kaê Guajajara ocupam um espaço fundamental nessa construção. Misturando rap, música eletrônica, reggae e sonoridades indígenas, Kaê cria obras onde território, espiritualidade, corpo e resistência caminham juntos. Sua arte projeta futuros indígenas vivos, urbanos e contemporâneos, rompendo com estereótipos cristalizados sobre povos originários.


Outro nome importante é Katu Mirim, artista que atua na música, na escrita e no ativismo indígena urbano. Suas composições atravessam denúncia política, ancestralidade e afirmação identitária, utilizando o rap como tecnologia de memória e sobrevivência.


Na cena da música eletrônica, das artes visuais e da performance, destaca-se também Nelson D, que

Nelson D desenvolve música eletrônica conectada ao futurismo indígena
Nelson D desenvolve música eletrônica conectada ao futurismo indígena

desenvolve uma pesquisa profundamente conectada ao chamado futurismo indígena. Nascido em Manaus e criado entre Brasil e Itália, Nelson mistura música eletrônica, trip hop, techno, arte visual e elementos ancestrais indígenas em obras que dialogam com identidade, deslocamento e memória. Sua produção utiliza tecnologia sonora, fotografia, pintura e performance para investigar o retorno ao “corpo território ancestral”, conectando processos contemporâneos e espiritualidade originária.


Outro nome que ganha destaque nessa nova geração é Jhenifer Willys, artista travesti, escritora, chefe de cozinha, modelo e pluriartista que constrói uma trajetória marcada pela transversalidade entre arte, corpo, identidade e ancestralidade. Sua atuação amplia as possibilidades de construção de futuros dissidentes e plurais com originalidade, afeto e potência estética.


Nas artes plásticas, artistas como André Hullk vêm criando obras que unem estética periférica, ancestralidade afro-brasileira e imaginários futuristas. Seus trabalhos dialogam com espiritualidade, identidade negra e tecnologia visual, transformando pintura e intervenção artística em instrumentos de memória e projeção de futuro.


No universo dos quadrinhos e da ilustração, Tai Yawara ajuda a expandir as possibilidades da ficção

ilustração da artista Tai Awara expande as possibilidades da ficção especulativa brasileira
ilustração da artista Tai Awara expande as possibilidades da ficção especulativa brasileira

especulativa brasileira a partir de referências indígenas, afrodiaspóricas e periféricas. Seus trabalhos constroem narrativas visuais que rompem padrões eurocentrados de fantasia e ficção científica, apresentando personagens, territórios e cosmologias conectadas à realidade latino-americana.


No design e na criação visual, artistas como Awá Arã utilizam grafismos indígenas, simbologias ancestrais e tecnologias digitais para criar linguagens visuais contemporâneas profundamente conectadas ao território e à memória coletiva. O design, nesse contexto, deixa de ser apenas estética e se transforma em ferramenta de comunicação ancestral e afirmação cultural.


Na filosofia, psicologia e educação, pensadoras indígenas como Geni Núñez têm se tornado fundamentais para compreender essas novas formas de pensar o futuro. Geni desenvolve reflexões sobre descolonização do afeto, saúde mental indígena, coletividade e construção de mundos para além da lógica individualista ocidental. Sua produção intelectual conecta ancestralidade, cuidado e transformação social.


Dentro dessa construção, também é importante ampliar o olhar sobre as múltiplas existências indígenas contemporâneas.


Durante muito tempo, o imaginário colonial criou uma visão limitada sobre os povos originários, como se a identidade indígena estivesse restrita apenas aos territórios aldeados ou congelada em um passado distante. Mas os povos indígenas também vivem nas cidades, ocupam universidades, produzem arte urbana, trabalham com tecnologia, moda, cinema, literatura, educação e música.


Os chamados povos originários urbanos não são “menos indígenas” por habitarem centros urbanos. Suas vivências carregam outras complexidades, atravessadas por deslocamentos, apagamentos históricos e pela necessidade constante de reafirmação identitária dentro das cidades. Ao mesmo tempo, os povos aldeados seguem exercendo papel fundamental na preservação de línguas, cosmologias, espiritualidades e relações profundas com território e natureza.


Não se trata de oposição, mas de compreender a potência da diversidade indígena contemporânea.


Enquanto aldeias preservam conhecimentos ancestrais fundamentais, artistas e intelectuais indígenas urbanos muitas vezes atuam como pontes entre mundos, traduzindo debates para espaços institucionais, culturais e digitais. Ambos os movimentos produzem contribuições sociais e culturais indispensáveis para pensar futuros mais coletivos, sustentáveis e plurais.


Imaginar futuros também é educar para possibilidades.


Na América do Sul, o futurismo ancestral ganha ainda mais potência por nascer de territórios atravessados pela mistura, pela violência colonial e pela reinvenção cultural constante. Povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, periféricos e afrodiaspóricos compartilham experiências marcadas pela resistência — mas também pela capacidade de criar mundos mesmo diante do apagamento histórico.


Por isso, o futurismo ancestral sul-americano possui características próprias.


Ele não busca apenas imaginar cidades hiper tecnológicas ou viagens espaciais inspiradas em modelos estrangeiros. Seu foco está em construir futuros sustentáveis, afetivos e comunitários. Futuros onde tecnologia não signifique destruição ambiental. Onde espiritualidade e ciência possam coexistir. Onde memória seja ferramenta de transformação — e não obstáculo ao progresso.


Nesse contexto, o futurismo ancestral dialoga diretamente com o afrofuturismo e com as cosmologias indígenas latino-americanas, criando uma produção artística profundamente conectada ao território e às experiências do sul global. Porque imaginar o futuro também é disputar narrativas.


Na Argentina, também cresce um movimento importante de reivindicação identitária e racial através do termo “marrón”, utilizado por pessoas indígenas, mestiças e racializadas para questionar a ideia histórica de uma Argentina exclusivamente branca e europeia. O movimento dos chamados “Marrons” tem ampliado debates sobre apagamento indígena, racismo estrutural, ancestralidade latino-americana e pertencimento cultural, especialmente entre jovens artistas, intelectuais e produtores culturais.


Dentro dessa geração, a potência de Milo J chama atenção não apenas pelo sucesso musical, mas pela forma como sua arte dialoga com juventude periférica, identidade latino-americana e sensibilidades contemporâneas. Mesclando rap, trap, música urbana e forte carga emocional em suas letras, Milo J representa uma juventude que rompe com padrões estéticos eurocentrados e reafirma novas possibilidades de existência, expressão e futuro para corpos historicamente marginalizados na América do Sul. Milo se faz um corpo ancestral no presente.


Talvez uma das maiores potências do futurismo ancestral esteja justamente nisso: lembrar que nossos povos sempre produziram ciência, arte, filosofia, tecnologia e imaginação — mesmo quando o colonialismo tentou negar essas existências.


O futuro, afinal, pode nascer da floresta, do quilombo, do palenque, da periferia, do terreiro, da aldeia, do slam, da roda de capoeira, do grafite e do tambor.


E talvez a grande pergunta seja: se nossos povos conseguiram criar beleza, ciência, espiritualidade, arte e futuro mesmo atravessando séculos de apagamento e violência, imagine o que serão capazes de construir quando finalmente lhes for dado o palco que seus protagonismos sempre mereceram?




Henrique André é escritor, designer, ilustrador e editor, além de pesquisador de Afrofuturismo. Autor dos livros Marminino, o mundo de OciKomo, Afrofuturo - Ancestral do Amanhã, entre outros.





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