Afinal, o que é afrofuturismo e qual a sua abrangência?
- marianavilelajorna
- há 1 dia
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A escritora Lu Ain-Zaila e o editor Israel Neto explicam o termo para iniciantes
Série Afrofuturismo

Por Mariana Vilela e Henrique André
Muito se fala sobre afrofuturismo e cada vez mais percebemos editoras e títulos se espalharem pelo Brasil. O afrofuturismo está nos livros, no cinema e outras artes em geral.
Para compreendermos mais sobre a temática, fomos entrevistar esses especialistas na área: o editor Israel Neto e a escritora Lu Ain-Zaila, para nos ajudar a conhecer mais sobre esse fantástico universo.
JH - Qual a abrangência do termo Afrofuturismo?
Lu Ain-Zaila: O Afrofuturismo é um movimento que começa nos EUA trazendo uma expressão diferente de arte e política, não é uma movimentação que vai pedir espaço para fazer arte, mas uma Arte que vai se expressar e pronto. Eu costumo dizer que temos as tecnologias maquinárias e as não-maquinárias em diálogo o tempo todo nas expressões artísticas especulativas. Daí a minha ideia de que o movimento é uma movimentação que nos atiça a propor imaginários, o que chamamos de afrofuturos. Isto é muito mais da ordem humana, arte é uma expressão humana que responde ao tempo porquê estamos no tempo das coisas. Portanto, o afrofuturismo é um movimento de pessoas negras dispostas a renascer localizadas em suas próprias experiências culturais e epistemológicas, propondo afrofuturos através da arte especulativa, sem fronteiras que privem seus imaginários, em variadas dimensões e temporalidades.
Israel Neto:
"eu costumo dizer que este nome é perfeito, porque é a nossa matriz do futuro, e por muito tempo e até hoje ela tenta ser misturada ou apagada, então a reafirmação dessa premissa do futuro é maravilhoso, e no futuro sem dúvida nenhuma vamos ultrapassar essas demandas, então o futuro é amanhã, o futuro é daqui a seis meses, é também daqui a quinhentos anos" , Israel Neto
Quando o proponente do termo afrofuturismo trouxe este tema nem era de obras futuro, todas protagonizadas por pessoas negras, mas eu acho que tem uma perspicácia, eu costumo dizer que este nome é perfeito, porque é a nossa matriz do futuro, e por muito tempo e até hoje ela tenta ser misturada ou apagada, então a reafirmação dessa premissa do futuro é maravilhoso, e no futuro sem dúvida nenhuma vamos ultrapassar essas demandas, então o futuro é amanhã, o futuro é daqui a seis meses, é também daqui a quinhentos anos. Então o porquê do termo é uma afirmação politica, mesmo que ela não tenha nascido com essa intenção.
JH - Sobre o afrofuturismo, a primeira ideia que me vêm sobre o tema é positividade em relação à negritude. O que mais podemos saber sobre o tema?

"A experiência afrofuturista é positiva sem ser positivista, sem fingir estar tudo bem o tempo todo, mas às vezes está em maior ou menor medida. Nem todas as dificuldades precisam ser sobre racismo, temos mais complexidades e o que falar de nós. Isso não invalida as possibilidades, mas nos dá o direito de ser livre em nossas escolhas de produção de arte especulativa" , Lu Ain-Zaila
Lu Ain-Zaila: O Afrofuturismo é uma aposta alta de arte-política que é cultural. Se expressa mostrando o que faz, como conecta o legado africanos e afrodiaspórico em seus próprios territórios e porquê são porções que germinaram pequenas medidas de seu território-mãe, a partir dos povos presentes. Isso é fantástico. Então, a experiência afrofuturista é positiva sem ser positivista, sem fingir estar tudo bem o tempo todo, mas às vezes está em maior ou menor medida. Nem todas as dificuldades precisam ser sobre racismo, temos mais complexidades e o que falar de nós. Isso não invalida as possibilidades, mas nos dá o direito de ser livre em nossas escolhas de produção de arte especulativa. E é assim que contamos histórias, a muito mais tempo que o apocalipse atravessado em nosso tempo. Por isso eu insisto na nova localização do artista afrofuturista e falo desde 2017 da importância da Filosofia Africana de um modo geral em nossa construção de arte livre.
Israel: O afrofuturismo é um movimento múltiplo, de múltiplas artes, de múltiplas frentes políticas, filosóficas e sociológicas, para abranger o espectro da vida negra, das vidas de pessoas que querem explorar esse sentido, e qual é o sentido? o sentido é ter essa presença negra no futuro, essa quase utopia de vencer todos os obstáculos e estar no futuro. E a abrangência na arte e na literatura ela se expressa majoritariamente pelas obras de ficção cientifica no Brasil, então o Afrofuturismo é esse pensamento num futuro próspero, um futuro onde as inteligências negras vão ser usadas, vão sobreviver, vão ter o seu protagonismo, e onde nenhuma matriz vai ser apagada, inclusive a matriz afro-brasileira.
JH - Afrofuturismo seria eliminar as problemáticas envolvidas no racismo, como essa vertente encara isso? Na literatura afrofuturista, falamos dos problemas e dilemas ou falamos somente da negritude de uma perspectiva positiva?
Lu: Podemos falar de tudo e o racismo mesmo presente como estrutura e sistema não nos rege enquanto pessoas e artistas. Nossas filosofias negras se regem pela vida, energia vital que persiste em bem-viver. Por isso é nosso direito usar a arte para libertar nossos imaginários do colonialismo cultural. É quando vemos que podemos muito mais, é quando percebemos que só arranhamos as possibilidades. Nossos pensadores e saberes são infinitas fontes de nutrição de imaginários de afrofuturos e estando cada um de nós num território diferente neste país, a mistura que vai sair da cabaça pra germinar arte afrofuturista no mundo vai ter um caldo de sabor diferente. As dificuldades podem ser de muitas ordens, não só racismo e num dia de irritação podemos também sorrir. Sendo assim, somos mais que positivos ou negativos. Essa ideia é cartesiana e sempre jogada sobre nós, devemos recusar este reducionismo. Cada nova expressão de arte nossa é sobre a experiência para superar qualquer régua de positivo ou negativo. Somos uma gira de possibilidade de afrofuturos que supera esta noção.
Israel: Na literatura, o afrofuturismo vai se expressar de várias formas, nos vários gêneros e sobgêneros da ficção científica e da fantasia, os temas são múltiplos assim como as negritudes são múltiplas, e as dinâmicas e os anseios são múltiplos, e eu falo das negritudes porque as negritudes do sudeste têm questões que são diferentes das negritudes do sul, do nordeste, do centro-oeste, mas sem dúvida nenhuma há coisas que nos ligam enquanto pessoas negras no Brasil, então sim, as demandas estão lá, os conflitos estão lá, porém , pelo menos no meu olhar enquanto artista, num sentido um pouco mais otimista, até para que os nossos problemas sejam outros, problemas que somente vamos conseguir enfrentar quando os problemas primários cessarem, então eu vou me propor a colocar histórias de como daqui a duzentos anos por exemplo uma questão pode ser resolvida a partir de uma experiência negra do século vigente aqui, então essa é a grande charada, essa é a grande questão que o afrofuturismo vai desenhando.
JH: Qual a importância da literatura afrofuturista para a infância além da questão da representatividade?
LU: "Definitivamente, a construção de um imaginário assertivo nesta fase é algo importantíssimo. Fico imaginando a diferença que seria ter lido o conto A Invenção das Tranças na escola, do meu livro Sankofia. Já imaginei isto na minha cabeça e com certeza teria me dado argumentos para lidar com o racismo nesta idade, mas talvez nem existiria este episódio porque crianças brancas também teriam achado a história incrível. E eu teria ido a semana toda super orgulhosa de tranças para a escola"
Então temos que entender que o racismo se alimenta da lacuna de imaginários, criando superioridade, inferioridade ou criando traumas raciais onde você não é um, mas também não é você, em busca de um espelho que te fere na pele, no cabelo, na capacidade de se defender e existir.
Daí a Literatura Afrofuturista ser importante, para equilibrarmos a balança de imaginários, pois se crianças negras podem ler histórias com crianças não-negras e se divertir, as não negras devem ler histórias com protagonismo negro também. Este seria ao meu ver uma medida justa de representação, que é mais importante que representatividade, pois esta última não implica mudança na base. E lembrando, somos a maior população de pessoas negras fora da África. Então, tecnicamente, nem deveríamos estar pontuando a importância, é importante e pronto. Daí vem a relevância da literatura afrofuturista e todas as literaturas negras trazendo todo o seu contexto de aderência imagética em maior ou menor medida em suas artes e literaturas.
Israel: A importância para além da questão da representatividade na infância é o sonhar. É ter uma visão positiva tanto visualmente de pessoas negras em papéis não-obvios ou em papéis decentes ou em papéis fantásticos. E também nessa questão de almejar estar nesse futuro, de poder se colocar naquele lugar, não só se ver representado, mas se ver futuramente naquele lugar. Histórias que mesmo se o personagem sofre, ele consiga superar, então na literatura infantil a gente tem um desafio que é trazer uma outra perspectiva dos temas. Que muitas vezes as próprias literaturas infantis não são feitas para crianças negras, mesmo que seja focado, porque são temas tão duros, que inclusive é tratado na questão anterior, que o lúdico é deixado de lado por essa dureza do que é ser uma criança negra, e agente usa essa potência que é a literatura infantil, a literatura afrofuturista e o lúdico que permeia ambas, pra fazer ela se sentir bem para que possa enfrentar os desafios dela. Então acho que uma das importâncias do afrofuturismo é realmente dar um acolhimento para as nossas crianças.
JH: Como podemos olhar as mulheres no afrofuturismo, o que elas estão realizando? Poderia citar alguns exemplos?
Lu: Sinceramente não sei dizer como está a presença, mas vejo uma presença muito boa e cada uma fazendo algo totalmente diferente. Para traçar um perfil, ainda precisamos de mais tempo e um trabalho de análise literária quantitativo e qualitativo, mas vejo a importância de mostrar mulheres negras em protagonismo e também a importância dos escritores numa sala de aula, numa biblioteca, uma criança, não importando o gênero com uma obra afrofuturista na mão descobrindo que pode e deve fazer pactos de vida, jamais de morte. A nossa grande vitória é esta.
Israel: "O afrofuturismo só existe por conta das mulheres, pelo menos no Brasil, e isso tem muita relação talvez com a conjuntura mundial, onde as mulheres, a nível de ficção científica talvez não tenham tanta projeção, mas elas escrevem muito!"
Israel: Então hoje em dia é muito citada a Octávia Butler, que acaba virando uma referência aqui no Brasil. Nós temos a Lu Ain-Zaila, a primeira mulher a escrever afrofuturismo no Brasil, e esta escrevendo até hoje, é uma autora que tem titulos fantásticos, organizou uma antologia de afrofuturismo que é a primeira antologia de afrofuturismo pelos autores. Temos tamtém o quadrinho que ela acabou de lançar, então ela está deixando explorar todos os gêneros do afrofuturismo. As mulheres estão encabeçando este movimento, e temos autora de vários territórios. Tem a Genildes, que é da Bahia, a Tainá, que acabou de lançar uma obra, temos a Sabine Mendes e outras mulheres incríveis fazendo afrofuturismo, temos a Lara de Paula, as mulheres são protagonistas no sentido de potência mesmo. Nos quadrinhos por exemplo temos a Ariane Purica e a Mar Surimar. Pelo que eu tenho visto e tenho editado e visto de fora, eu diria que as mulheres são 60 ou 70% da produção afrofuturista brasileira.
JH: Qual a tendência na arte afrofuturista?
Israel: Acho que a tendência infelizmente é seguir um pouco da maré geral, nós temos visto uma tendência de obras seriadas, alguns temas clichês, um produção quase para streaming no livro, acho que esta é uma tendencia ruim para ser sincero, então como editor acho que a gente tem o papel de apontar outros caminhos e, como autor, enquanto temas,
"eu acho que é o momento de dar um passinho para trás, ser menos genérico nas abordagens, e no campo da fantasia esticar mais a corda, propor uma fantasia mais transgressora, no sentido de nomes, de cenários, e isso vai ter com que fazer com que a gente estude um pouco mais a fundo. Que a gente não fique só no clichê do que a gente já sabe"
talvez a gente tenha que voltar lá de novo mesmo né, no sentido de estudar mais a fundo por exemplo as mitologias de Angola, as mitologias da Nigéria, não só se alimentando um pouco dos orixás, então vem outras matizes, isso pode ser uma diversidade pensando nas outras Áfricas, que está rolando hoje no sentido de não ficar se alimentando em referências velhas.
Lu: Eu sempre espero a superação, conforme vamos experimentando e assumindo mais fortemente nossa potência de criar afrofuturos. A literatura é um abre-alas de imaginários fantástico, é a nossa arte verbal em letras escritas, mas também desejo que experimentemos esta arte verbal no formato oral, das pequenas ideias, como será que elas de fixariam nos imaginários dos ouvintes? Eu já experimentei e é divertido este fazer, ali, na hora e deixar um gosto de “quero mais...”. Acho que também pode ser um meio de expressão, de mostrar que, olha, isso é legal e uma coisa apoia a outra. Vem a vontade de livros, mais detalhes. E é isso, que possamos romper as barreiras de nossos próprios passos.
Sobre os entrevistados
Lu Ain-Zaila é Mestre em Letras (PUC-Rio). Pedagoga e Escritora afrofuturista das obras Duologia Brasil 2408 - (In)Verdades e(R)Evolução; Sankofia, Ìségún, Pensamentos Afrofuturistas (org) e a Etoon/HQ Ukwa. Além de contos em antologias, avulsos, e realiza pesquisas relacionadas à educação e literatura afrofuturista.
Israel Neto é escritor, dramaturgo e editor. Participou de diversas antologias literárias da literatura periférica e negra entre 2009 a 2015. Autor dos Livros Amor Banto em Terras Brasileiras, Os Planos Secretos do Regime, Ancestral, Não Podemos Esperar e A cabeça de Zumbi. Recebeu os prêmios Jovem Brasileiro, 2011, Funarte Hip Hop em 2014, Prêmio Odisseia de literatura fantástica, 2021 e Troféu Aberst 2025 como destaque na categoria narrativa juvenil. Dramaturgo a peça “Otelo, o Outro” e roteirista da série de Quadrinhos “Os 3 Esús e o Tempo”. Tem desde 2018 fomentado a cena de literatura negra afrofuturista, em sua produção literária e na publicação de outras autoras e autores.





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