Universidade Zumbi dos Palmares consolida seu lugar na Bienal do Livro
Espaço reuniu mais de 50 autores contemporâneos com diversidade de títulos da literatura negra e indígena
Do dia 4 ao dia 13 de setembro, a literatura negra, indígena e periférica ocupou lugar de destaque na Bienal do livro de São Paulo no estande da Universidade Zumbi dos Palmares, que apresentou em torno de 50 títulos entre literatura infantil, infanto-juvenil, adulto, ficção e não-ficção, com obras que abordaram letramento racial, cosmovisão indígena, poesia, sustentabilidade, inclusão, entre outros.
Responsável pela curadoria das publicações do estande e também escritora, Aline Maria Soares acompanhou de perto o interesse do público durante os dez dias do evento. Para ela, marcando sua presença na Bienal do Livro pela segunda vez, a Universidade mostra o que é possível construir com a união de escritores ainda invisibilizados nos espaços literários e de conhecimento.

“Ocupando este espaço, a Universidade Zumbi dos Palmares não só leva livros: leva o resultado de sua própria formação, de sua política de educação e de seu compromisso social. Reunir autores variados é provar que a instituição funciona como um verdadeiro coletivo: acolhe, forma, impulsiona e apresenta ao mundo com a base firme de que ninguém cresce sozinho: nós por nós”, comenta Aline, que também é ex-aluna de pedagogia da Universidade e participa pela segunda vez da Bienal.
Além de curadora, Aline Maria Soares também representou o estande com alguns dos seus livros, dos quais seis são em português e quatro em inglês. Alguns deles são “A História do Nome Abayomi” e “A Amiga Estadunidense da Abayomi”, “Malik e Abayomi - os irmãos fantásticos”, criado a partir da convivência com seu filho Malik que tem síndrome de down, e dessa forma leva conhecimento sobre a inclusão de crianças negras atípicas.
Aline transformou a sua literatura em instrumento de educação, além de geração de renda e empreendedorismo - ela também cria bonecas de pano negras e indígenas representando a diversidade de corpos brasileiros.
Literatura para além dos livros

Entre rodas de conversas, musicalidade, performances e outras formas de arte, o espaço mostrou que a literatura negra vai muito além dos livros. Com um mapa de tecido bordado com o mapa da África, feito pela artista Silvânia Francisco, que também é escritora, bonecas feitas a partir de jornal, ecobags com tintas criadas a partir de técnicas africanas, jogos adinkras e outras diversas possibilidades lúdicas, o espaço chamou a atenção pela oralidade presente em cada manifestação literária.
A escritora Conceição Rosa foi uma dessas autoras que se destacaram pelas diferentes ramificações que transita através da literatura. Com seu último livro, Luiz do Sertão e do Mundo, ela criou uma performance que envolve sonoridade e representação. Com uma sanfona e uma mala, representando os elementos do forró e homenageando os retirantes, como era o Gonzaga, a autora ultrapassa o limite dos livros.
“Para ser escrito este livro foi feito uma pesquisa antes, com documentários e livros sobre Luiz Gonzaga, e a performance entra porque a pesquisa continua no momento em que eu canto a música Mulher Rendeira como uma interpretação de Luiz Gonzaga, de autoria de um grupo que ele admirava, que era o grupo de Lampião. Eu entrei com a sanfona, mesmo sem saber tocar sanfona, e ainda convido as pessoas a tocarem, dançarem comigo e até criarem seus versos”, conta.
Conceição também fez o mesmo trabalho com o livro Sereias e o lixo no mar, quando trabalha a questão da representatividade, já que as suas sereias são negras, e também o despertar para a consciência ambiental. “Todos os livros que eu já produzi têm personagens feito de material sustentável. Então o jornal amassado, o jornal que já foi lido ali, é a base das minhas peças e eu trago os personagens para esta forma. A arte e literatura não se fecham, são um caminho aberto para o diálogo, para as confluências, do combate ao racismo, da valorização da literatura”, comenta a autora, que também participa do Coletivo literário Caiás.
Monica Sena e o chamado ao “Recriançar”.

Brincadeiras africanas é o tema que a poeta brincante Monica Sena tem se debruçado através das contações de histórias e sua literatura. A partir do livro Recriançar, ela manifesta o legado deixado pela sua família, uma família que gostava de brincar. “As lembranças com minha avó, minha mãe, tias, tios e meu pai são muito fortes, também com minhas irmãs, irmãos, primos e primas, na escola ou na rua com amigos, amigas. Das brincadeiras no quintal, as poesias nos cadernos de adolescente", diz.
Para ela, foi emocionante observar o público chegando e admirado por se reconhecerem nas histórias e livros criados pelos autores. “Até as crianças, algumas se reconheciam nos livros e não queriam largar nem para autógrafo. Diziam para seus familiares: É meu! Isso é muito lindo! Ou de repente, alguém chegava com o livro de um nós na mão, sem que fosse abordado para escolher e quando descobria que o autor/autora estava lá, era uma felicidade para ambos. O que vivenciamos estes dias ficará na memória e nos registros para sempre”, comemora a artista, que em breve publica seu próximo livro chamado Recriançafro.
Literatura indígena presente?

Apesar de ainda sentir falta de mais títulos da literatura indígena, a escritora e editora Martha Lima, dos Saberes da Mata, viu com bons olhos a sua primeira participação na Bienal do Livro através da Universidade Zumbi dos Palmares.
Sendo mulher autodeclarada indígena de contexto urbano, Martha criou sua editora em 2023 para dar conta da necessidade de captar autores indígenas inéditos e facilitar as publicações. A editora está sediada em Florianópolis, no sul do Brasil “onde se tem a crença de não existência de povos originários neste local geográfico”.
“Eu fiquei impressionada com a grandeza do evento, com a quantidade de público e também com a dimensão do alcance de participar como escritora indígena e editora independente. É também um lugar para conhecer outras realidades no mercado do livro, contatos com outros autores e perceber as relações com profissionais da cadeia produtiva de livros”.
Seu primeiro livro - Oboré, quando a terra fala vendeu mais de 1300 exemplares, e o segundo livro Contos Amazônicos por vovó Martha foi um espaço para levar os saberes ancestrais por meio de narrativas originárias, enfatizando os encantados do bioma amazônico.
Coletivo literário Caiás, os frutos de ações da Zumbi
Tendo iniciado por meio da Flink Sampa 2024,Festa do Conhecimento, Literatura e Cultura Negra, realizada em novembro com iniciativa da Universidade Zumbi dos Palmares, formou-se o Coletivo Literário Caiás, que reuniu alguns escritores negros interessados em se unir para fortalecer a literatura negra de autores independentes. Com dois anos de formação, os autores já participaram de eventos importantes na cidade de São Paulo como Flipei - Feira Literária dos autores independentes, Flink Sampa, Expofavela, entre outros.

Os autores marcaram presença no estande da Universidade Zumbi dos Palmares 2026 e se destacaram
com suas publicações, com livros que abordaram por exemplo, o Atlas Geográfico da África, de Odair Marques, que apresenta o continente africano de uma perspectiva menos estereotipada do que a mídia vende para o mundo. Também participaram os autores Claudio Marques, Mariana Vilela, Monica Sena e Conceição Rosa, Elaine Regina, Silvania Francisca, Salvador, Esmeralda Ribeiro, Mercia Magalhães, Edna Pessanha e Jorge Felizardo, com publicações que transitam por poesias afroafirmativas, quadrinhos com heróis negros, livros infantis com abordagens diversas, romance infanto-juvenil, entre outros.

Para Jorge Felizardo, um dos fundadores do Coletivo, "Partipar da Bienal, pessoalmente, foi muito
importante na minha trajetória como escritor e pesquisador das relações étnico-raciais, e uma possibilidade de crescimento profissional e uma visibilidade ímpar, por conta das relações, dos contatos, das trocas com outros escritores, editoras, gráficas. Para o nosso Coletivo, foi um espaço de visibilidade e possibilidade de reconhecimento dos diversos valores dos membros do nosso grupo".
Reportagem e edição de Mariana Vilela

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