Quando a Seleção pensava: a Copa de 70, a ditadura e o vazio político do futebol brasileiro atual
- Henrique André

- há 2 dias
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A nova série da Netflix, Brasil 70 – A Saga do Tri, chega como um lembrete inconveniente: houve um tempo em que a seleção brasileira tinha jogadores que, além de dominar a bola, também pensavam o país.
E talvez seja justamente isso que torne a série tão desconfortável — e tão necessária.
Porque assistir à reconstrução daquela campanha histórica é perceber que o futebol brasileiro já foi mais complexo, mais humano e muito mais politizado do que essa atual versão pasteurizada da seleção transformada em vitrine de patrocinador, penteado milimétrico e postagem publicitária.
A série revisita o tricampeonato mundial conquistado em meio ao período mais violento da ditadura militar brasileira. Enquanto o governo Médici usava a taça como propaganda de um suposto “Brasil grande”, o país vivia censura, tortura, perseguição política e medo.
O futebol virou instrumento de distração nacional. Mas nem todos aceitaram o papel de marionete calada.
João Saldanha surge na série como uma figura quase impossível de imaginar no futebol contemporâneo: técnico, jornalista, comunista e dono de coragem política. Um homem que peitou a ditadura em plena preparação para a Copa do Mundo. Quando Médici quis interferir na escalação da seleção, Saldanha respondeu com a elegância agressiva de quem entendia que futebol também era disputa de poder: “O presidente escala o ministério, eu escalo a seleção.”
Tostão também aparece como símbolo de um futebol que refletia sobre si mesmo e sobre o mundo. Um jogador intelectualizado, crítico, interessado em política, cultura e humanidade. Algo quase extraterrestre perto da atual geração de atletas treinados para responder qualquer pergunta com “o grupo está focado” e “glória a Deus por mais uma oportunidade”.
E há Paulo Cézar Caju. Paulo Cézar Lima. Preto, irreverente, consciente racialmente e incapaz de caber na fantasia higienizada do atleta obediente. Sua presença desmontava o mito de que o jogador deveria apenas jogar e sorrir para a câmera. Caju entendia algo que o futebol brasileiro ainda finge não compreender: o corpo negro no Brasil é exaltado quando vence e descartado quando reivindica humanidade, nada mudou desde então sobre esse fato.
A série deixa claro que aquele elenco não era composto apenas por craques. Eram homens atravessados pelas tensões de um país em conflito. Homens que entendiam — em diferentes níveis — que vestir a camisa da seleção significava representar um povo inteiro, e não apenas contratos milionários.
E talvez seja aí que a produção fique involuntariamente cruel com o futebol brasileiro atual.
Porque ao assistir Brasil 70, fica impossível não perceber o abismo entre aquela geração e a seleção contemporânea.
Hoje, muitos jogadores parecem existir numa dimensão paralela, completamente desconectados da realidade do povo brasileiro. Não falam sobre desigualdade. Não falam sobre racismo estrutural. Não falam sobre fome. Não falam sobre violência policial. Não falam sobre educação. Não falam sobre democracia. Não falam sobre nada.
São atletas transformados em marcas ambulantes.
Homens que saíram da periferia, mas frequentemente parecem constrangidos pela própria origem. Jogadores que acumulam fortunas inacreditáveis enquanto demonstram pouquíssima consciência de classe, nenhuma elaboração política e uma relação quase turística com o Brasil real.
Existe algo profundamente simbólico numa seleção que perdeu a capacidade de dialogar emocionalmente com o próprio povo.
Talvez por isso a camisa pese tanto hoje. Talvez por isso falte identidade. Talvez por isso falte encanto. Talvez por isso sobre marketing e falte alma.
E nesse cenário, imaginar Carlo Ancelotti reunindo os jogadores para assistir à série como preparação para o hexa chega a ser uma imagem maravilhosa.
Quem sabe alguém descubra que a amarelinha já representou mais do que publi de casa de aposta.
Quem sabe percebam que houve um tempo em que jogadores carregavam não apenas expectativas esportivas, mas também contradições sociais, dilemas políticos e responsabilidade histórica.
Porque futebol nunca foi apenas futebol.
Foi instrumento de manipulação. Foi resistência. Foi identidade nacional. Foi disputa simbólica. Foi consciência. Foi alienação. Foi arte.
Porque o futebol brasileiro nunca foi só futebol.
Foi disputa de narrativa. Foi anestesia. Foi resistência. Foi propaganda. Foi poesia. Foi contradição.
E talvez o hexa comece exatamente quando a seleção entender isso de novo.



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