O que Me Coma Viva representa?
- marianavilelajorna
- há 3 dias
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Um título de um livro e as provocações que ele traz
por Mariana Vilela

Como o título de um livro deve ser escolhido? Escolhido de forma que ele traduza o livro, que ele instigue, provoque, nos convoque?
Fiquei pensando nisso depois de receber os primeiros retornos do nome do meu novo livro, Me Coma Viva. O livro é um romance epistolar, ou seja, a narrativa é escrita por cartas entre duas irmãs, Sarah e Marcela. As cartas expõem o conflito da relação entre elas, referente às suas escolhas de vida, bem como o conflito entre o campo e a cidade.
Enquanto Sarah continua vivendo na cidade de Valquíria, Marcela vai em busca de novas oportunidades de vida na cidade grande. Esta mudança de vida provoca transformações e fissuras nas relações familiares, Marcela se transforma em uma pessoa não grata pela família, o dialeto é deixado pra trás, a casa de pau-a-pique, a Folia de Santo Reis, o mutirão, a goiabada cascão cozida no tacho. Mas não sem o saudosismo de quem saiu, a mágoa de quem ficou. De resto não conto mais, te convido à leitura.
Mas, voltando ao título e as reações: A maioria foi positiva, ficou intrigada, aplaudiu e elogiou. Confesso, a primeira pessoa que ficou remexida por dentro fui eu.
Inicialmente, o título deste livro seria Buracos na Cortina de Organza, simbolizando os buracos na Cortina da família, os buracos na relação, óbvio demais, te convoca? Sim, óbvio demais, creio.
Frequentei as oficinas de escritas do escritor Marcelino Freire, que aliás, recomendo demais, é sempre uma experiência única, e foi ali que descobrimos que o título do livro não era esse. Assinalamos outros, Axé Cabaré, Coma-Viva, Me Coma Viva, eis que Me Coma Viva é uma frase que aparece no livro, tinha que ser esse, não tinha jeito, mas, quando eu recebi a capa eu quase não dormi a noite. O Me Coma Viva foi ainda valorizado pela editora, que deve ter percebido a força do título, aí que a crise me devorou ainda mais.

Escrever é se remoer por dentro. Apazigua e incomoda, retorce a gente pra depois se refazer. Labirinto necessário. Profundo e inquieto.
A minha mãe me alertou: As pessoas podem mal interpretar. “Alguém pode te cantar”. E, de certa forma, ela estava certa. E se a pessoa que te cantar for uma pessoa que te interessa, e se a pessoa quiser só te comer? E aí? Uma mulher muito exposta? Uma mulher que tem desejos? Pode? “Hum… título sugestivo”. Sugerindo o que? E se não tiver nada disso. Ei, eu só sou uma romancista!
Outro homem não ficou acanhado de postar uma frase no meu facebook “Está desesperada e sem namorado”. Respondi a ele; babaca, mas percebi que a reação dele me incomodou menos do que eu esperava. Sinal que já estou saindo do papel de vítima deste sistema, que estou bancando o título que o livro pediu, as reações que ele está suscitando.

Fui olhar alguns títulos fortes que vieram pra instigar e chacoalhar a gente. Porca Gorda, da Jéssica Balbino, dá um tapa na cara da gente. Sim, é a frase que ela escutou, ou não escutou mas sentiu, sabendo que seria exatamente o pensamento gordofóbico dessa sociedade para com o seu corpo gordo. Um corpo existindo, mais um corpo no mundo, mas um corpo que provoca tanto ódio e repulsa e desamor.
Outro livro que gosto do título é Puta Feminista, da Monique Prada, um livro que representa exatamente o que o livro quer dizer: Puta pode ser feminista?

Outro é da mulher trans Amara Moira, E se eu fosse Puta (Pura), fazendo o trocadilho entre Pura e Puta, apresentando o quanto a nossa sociedade é transfóbica e ao mesmo tempo deseja o corpo dessa Puta trans. A hipocrisia.
Me Coma Viva. Acho que esse título veio pra incomodar, começando pela autora. Não é fácil ser escritora. Muito menos simples ou glamouroso. Mas talvez seja minha missão.

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