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Série: Mulheres do Ver-O-Peso

Elas queixam-se da diminuição de matéria-prima e clamam por compaixão à floresta


Por Mariana Vilela

Dona Ilma dos Santos afirma que o volume de vendas caiu pela metade após a pandemia. Foto: Mariana Vilela

Faz 43 anos que a Sra. Ilma dos Santos trabalha no Ver-o-Peso, o peculiar mercado capital paraense à beira da Baía de Guajará no rio Guamá, que reúne uma multiplicidade de culturas locais, entre gastronomia, artesanato e arquitetura, sendo também um ponto de geração de renda para os comerciantes das redondezas.


Além disso, é patrimônio tombado pelo Patrimônio Histórico e considerado uma das sete maravilhas do Brasil. Certamente, uma experiência única de reconhecimento da cultura brasileira.


Dona Ilma, uma senhora de 65 anos, nascida na cidade de Vila Conceição de Irituia, no Estado Pará, titubeia antes de dar a entrevista, mas decide aceitar a conversa.


Conta que sai de casa de madrugada e inicia seu trabalho no mercado às 8h30 da manhã e termina às 16h da tarde, e a barraca é aberta de segunda a domingo.


“Comecei como ajudante e fui me aperfeiçoando. Antes deste trabalho, eu era dona de casa. De lá para cá, minha mãe faleceu e meu pai veio trabalhar aqui. Depois me casei e fiquei viúva e tive que sustentar a casa. Isto o Ver-o-Peso me trouxe”, diz ela, referindo-se à autonomia que ganhou com o negócio próprio.


Pergunto se o mercado lhe oferece a renda necessária. Com orgulho, ela responde: “Graças a Deus”. Diz que com a pandemia, a renda caiu pela metade, mas ainda sim dá para continuar mantendo a casa enquanto a filha de 36 anos cuida do lar. A ajuda se estende a netos e bisneto.


Entre os produtos naturais, na barraca da Dona Ilma é possível encontrar uma diversidade de óleos e leites da Amazônia, como o óleo de copaíba e andiroba, um dos mais procurados pelos clientes, e uma diversidade de produtos para a parte ginecológica da mulher, como cascas de aroeira, barbatimão, casca de sucuuba, unha-de-gato. São chás e preparo de banhos íntimos que ajudam na limpeza do útero da mulher.


Possui o conhecimento para explicar as propriedades de cada um dos produtos que tem na barraca. “Eu aprendi tudo aqui. Diz que quanto mais a gente aprende, menos a gente sabe, não é?”, sorri.


Diferente da Dona Ilma, Dona Clotilde dos Santos, de 71 anos, tem um espírito expansivo. Seu espaço, a barraca da tia Colô, é uma das mais famosas do Ver-o-Peso, e inclusive ela orgulha-se de ter recebido visita de personalidades midiáticas “do mundo todo”, exibindo um painel de fotos como parte da decoração do seu estande.


“Eu gosto de ser uma pessoa muito dada, e não faço diferença de nada. Eu trato as pessoas assim de bem, meu amor, meu anjo, minha querida. O que você quer? Eu tenho aqui o perfume do amor!”


Talvez a ancestralidade baiana da mãe seja uma das explicações para tal calor humano. “Minha mãe dançava muito na umbanda… E você sabe, né, filha de peixe, peixinho é!”.


Com 37 anos no Ver-o-Peso, a barraca da tia Colô também difere por tamanha diversidade de produtos considerados “místicos”, assim como a barra da filha Cléo, que está entre os cinco filhos que trabalham no local, entre os 13 filhos de tia Colô. O marido e duas irmãs também têm suas barracas no local.


Com a mãe, aprendeu as riquezas da cultura africana, os detalhes da mistura de ervas para o preparo de banhos e perfumes para finalidades diversas.


Tem banho para tirar a inveja, moleza, “paneleira”, mau olhado, os perfumes do amor, perfume de amansar homem, e cheiro para a “perseguida”. Além dos meus banhos atrativos que abrem para a felicidade, amor e prosperidade no lar. “Amansa-chefe, Amansa-corno, tem o Cheiro-do-Pará. Este você vai gostar!”


A rotina sua e da família começam na madrugada. Saem de casa às 3h da manhã junto com os cinco filhos que trabalham no local e moram na mesma região.


Chegam no mercado às 5h e ficam, geralmente, de duas até às quatro horas da tarde. Mas o trabalho não para por aí. Ao chegar em casa, ainda é tempo de preparar os banhos. Nos feriados, não trabalha no Ver-o-Peso, dedica-se `a elaboração das receitas.


“Eu quero te apresentar a minha pomada milagrosa. Essa minha pomada é conhecida no mundo todo. Eu mesma que faço. Ela serve para artrose, artrite, bursite, coluna, osteoporose, dor muscular e até para derrame. Ela é muito boa!”, orgulha-se.


Eu fico curiosa para saber de onde vem as ervas da famosa barraca da tia Colô. “Eu não conto as minhas misturas para ninguém. Eu conto o santo, mas não mostro as rezas”, e gargalha a tia Colô.


fotos: Mariana Vilela.


Medicina indígena em escassez


Dentre os cinco filhos da tia Colô que trabalham no Ver-o-Peso, Cléo é uma das que seguiram o legado da mãe e se aprofundou no conhecimento das ervas indígenas. Tem 45 anos e a língua afiada quando critica a

exploração da Amazônia.


Explica que ela e sua família são conhecidos como erveiros, que é o nome de quem trabalha com ervas, mas quem tira a mata é conhecido como mateiro. “Antes de comercializar as ervas no mercado, eu era mateira, plantava e tirava da mata. Agora eu estou mais na compra e comercialização”.


Cléo me conta que seu trabalho divide entre estes dois conhecimentos. O primeiro seriam os conhecimentos medicinais, oriundos dos índios, e os banhos e perfumes, oriundos da África.


Me apresenta um pouco de tudo. Diz que “se a coisa está meio parada”, recomenda o banho de limpeza, tranca-rua, desembaraça, abre-caminho. “Dona Cléo, hoje estou meio pra baixo, meu namorado me deixou”. Aí a indicação é o pegue-não-me larga, e todos os tipos de ervas para chamar o amor, se a pessoa quiser”.


“Ah e sabe a azulzinha?”, referindo-se ao medicamento viagra que é vendido nas farmácias. “Não tome, tem efeito colateral! Tome natural”. A família vende o tal do viagra da amazônia, que mistura diversas ervas amazônicas e, segundo Cléo, serve tanto para homem quanto para mulher.


Para o começo do câncer, são indicados os óleos medicinais, a andiroba, copaíba e o jatobá. “A indústria vêm aqui, tanto farmacêutica como de cosméticos, para buscar nosso conhecimento, mas a verdade é que depois temos que vencer a forte concorrência com elas. As farmácias de manipulação sempre vêm até nós, entender a dosagem certa”, queixa-se.


Sente que a matéria-prima de ervas e óleos vêm caindo progressivamente. “Essa queimada afeta a gente aqui. Eu faço um apelo para as pessoas terem compaixão do que estão fazendo com a mata. Se continuar assim, nossos produtos vão acabar. O homem não entende que os filhos e os netos não terão o conhecimento nem de olhar. Eu peço, por favor, compaixão!”, emociona-se.


Conta que no mercado, muitos comerciantes não sabem nem ler, nem escrever, mas possuem um conhecimento profundo da natureza amazônica paraense. “Se a pessoa vier aqui e ficar estudando durante 10 anos, não terá o conhecimento que a gente tem. É um ensinamento de gerações”.


“O ver-o-peso é nossa segunda casa. Aqui é a nossa história. Para trabalhar com ervas, tem que ter amor. Praticamente todos nós, cinco homens e quatro mulheres, todos nós temos conhecimento. Estamos aqui para ajudar as pessoas que precisam, com carinho, amor e tradição”.


"Se eu pretendo deixar o Ver-o-Peso? Só se papai do céu me levar!”

Cléo, filha da tia Coló, reclama que as ervas vêm diminuindo com o passar do tempo. Foto: Mariana Vilela

A diversidade amazônica da Tia Carmelita


Assim como a Dona Ilma, não foi fácil convencer a Dona Carmelita a dar a entrevista. A barraca de Carmelita Passos Rocha, uma das mais antigas, sobrevivendo há quase 50 anos, possui a maior diversidades de frutos e sementes exóticos.


Cuidadosamente, a senhora de 71 anos, de corpo magro, nascida em Cametá, a 328 km de Belém, inicia a arrumação da barraca às 6h da manhã, e disponibiliza nos espaços e nas cestas artesanais a variedade de óleos, frutos e extratos diversos.


Orgulha-se de ter frutos que não há de encontrar em qualquer lugar na cidade de Belém e de ter clientes no Brasil todo. “Meus clientes me ligam e eu mando entregar também. Mas agora na pandemia, está tudo parado”.

foto: Ivan Risafi

Jatobá, sapucaia, jupati, batata-do-acre (só Carmelita possui no mercado!), babaçu, muruci, jambo-rosa, patauá, buruti, barquita, marajá, buçu (uma espécie de de fruto que possui água dentro), patauá, semente de cedro, semente de uxi, urucum.


Tudo disposto nas prateleiras da tia Carmelita, que sabe a importância e a cura de cada um dos seus produtos. “Há quase 50 anos estou por aqui, e mantenho a renda minha e da minha família. Mas você sabe, para que eu dê entrevista, tem que pagar um cachê. Até a Ana Maria Braga já veio aqui e me levou para a Rede Globo”.


A comerciante sabe se valorizar. A jornalista concorda. Com uma experiência de quase 50 anos cuidando dos frutos, sementes, óleos e riqueza natural da Amazônia em um dos pontos culturais mais importantes do país, não há o que discordar de Carmelita.





fotos e colaboração: Ivan Risafi






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