Literatura Periférica vive fase de consolidação
- marianavilelajorna
- 29 de set.
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Movimento começou há 25 anos e marca seu lugar na literatura brasileira
Mariana Vilela
O movimento da Literatura Periférica, também conhecido como literatura marginal, completa vinte e cinco anos de idade se for analisado num cenário coletivo, e atualmente comemora sua fase de consolidação.
Este é o cenário indicado pelo historiador e Coordenador de Cultura da ONG Ação Educativa, Antônio Eleilson Leite, responsável pela coordenação de diversos eventos ligados à cultura periférica na cidade de São Paulo há 25 anos. Ele explica que o movimento começou nos anos 2000, tendo seu marco com a publicação do livro Capão Pecado, do Ferréz, que foi seguido da publicação de um selo chamado Literatura Marginal como suplemento da revista Caros Amigos.

“Foi a partir desse momento que os autores foram se aglutinando e criando um movimento que se fortaleceu com os Saraus, como o Sarau da Cooperifa de 2001, criado pelo autor Sérgio Vaz. A partir disso, foi criado o VAI que é a valorização de iniciativas culturais, no edital de 2004, e viabilizando iniciativas desses projetos que se consolidaram como coletivos, incrementando e publicando antologias. Depois vieram os Slams no fim da primeira década e a Batalha de Rima. A literatura periférica não pode ser dissociada deste movimento”, afirma o gestor.
O escritor José Sarmento, que também acompanha o cenário desde o início, acrescenta um outro elemento fundamental que caminha junto com a literatura periférica, o movimento do hip hop. “Ela começa a ocupar espaços nas periferias com os saraus, que foram se multiplicando. Dessa forma, mais gente foi se interessando em participar, descobrindo-se poeta, escritor e sobretudo leitor”, relembra.
Assim, a necessidade de se chegar às escolas também se acentuou. “Algumas escolas começaram ceder espaços e abrir portas e a mente dos seus gestores”.

Sendo um desses autores que circula nas feiras periféricas, nos saraus e sobretudo nas escolas, José Sarmento já publicou 13 livros e dois e-books, tendo sua marca registrada na literatura periférica. Aprendeu a ler aos 14 anos, logo se apaixonou pela leitura e passou a se expressar escrevendo, começando com a poesia.
“Isto ocorreu mais acentuado quando migrei da Paraíba para São Paulo aos quase 20 anos. Como era muito tímido e vivia amedrontado na metrópole tentando ganhar a vida como morador inquilino de quartinhos de cortiços, acabou que a literatura ocupou muito meu tempo”.
Os livros o faziam viajar e esquecer a grande família que deixou no sertão paraibano. Devorava publicações de temáticas variadas nas bibliotecas públicas da capital, pois não havia bibliotecas no seu território sertanejo. Foi surgindo então a necessidade de se expressar com mais voracidade pelas palavras que ocupavam seus pensamentos, momento em que nasceram os grandes textos em prosa, que inclusive culminaram em um dos seus livros mais conhecidos, A Revolução dos Corvos.
Mas afinal, o que é literatura periférica?
Maria Nilda de Carvalho, mais conhecida como Dinha, escritora e editora da Me Parió Revolução, além de pós-doutora em Literatura e Sociedade pela USP, define a literatura periférica como uma literatura que tem linguagem, estilos e ponto de vistas próprios de quem vive nas margens geográficas e socioeconômicas do país.
“É um movimento, uma escola literária, cujas obras dialogam entre si mesmo quando quem as escreveu não teve um contato prévio. Uma diferença básica entre a periférica e a não-periférica é o fato de estarmos posicionadas como sujeitos, não mais como objeto estereotipados”.

Ela acredita que nessas histórias e na representação dos sujeitos poéticos, embora os autores continuem sendo a classe oprimida, é possível manter uma complexidade que é mais digna e mais equivalente ao que são na vida real.
Dinha faz literatura periférica desde os doze anos de idade, ainda que naquele momento, início da década de 1990, não era visto com este nome. “Era um tempo sem livros, sem bibliotecas e com poucas pessoas leitoras. Meus dois amigos que liam, como eu, eram vistos como alienígenas”.
Foi com o fortalecimento do movimento Hip Hop, com as “posses” - coletivos formados a partir do fim dos anos 1980 em diferentes territórios do país, geralmente nos bairros periféricos, como Força Ativa, Poder e Revolução, Posse Mente Zulu e outras, que as primeiras bibliotecas comunitárias nasceram para suprir a necessidade de conhecer mais sobre as figuras lendárias do Movimento Negro mundial, como Zumbi e Dandara, Aqualtune, Luther King, Malcon X e Mumia Abu-Jamal. “Nas posses também se fizeram os primeiros saraus que conheci: ao final de cada reunião era comum que nos reuníssemos em volta de uma fogueira para cantar, contar histórias e ler poesia, quase sempre autorais”, diz.
A periferia está sendo mais lida?
Para o gestor da Ação Educativa, Eleilson Leite, não há dúvidas de que a literatura periférica consolidou o seu espaço. “A periferia aprendeu a se publicar, e também as editoras grandes passaram a publicar autores periféricos para incrementar a diversidade de seus catálogos como uma imposição do novo tempo. Então hoje é uma literatura amadurecida e consolidada, que já não fica mais presa só na afirmação. Hoje tem muita experimentação, tem autores periféricos falando de outros contextos; a prosa avançou muito, pois até um tempo atrás as publicações eram majoritariamente poesia”.

Apesar de não haver uma estatística propriamente disponível, a Ação Educativa possui alguns indicadores que mostram que a periferia está lendo mais seus próprios autores, razão pelas quais existem seus próprios editores.
São edições todas esgotadas praticamente no circuito periférico, livros que muitas vezes não chegam nas livrarias. “Então isto já denota o quanto que a periferia está consumindo mais".
Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, houve uma queda acentuada de leitores nos últimos anos, mas Eleilson acredita que entre os que lêem, está havendo mais diversidade, e a literatura periférica tem tido seu lugar até porque existem mais autores periféricos no mercado.
Ele aponta nomes como o escritor José Falero, de Porto Alegre, e Geovani Martins, que só publicaram por grandes editoras, assim como Conceição Evaristo, que hoje está na Pallas, editora já estabelecida no mercado. A escritora Ryanne Leão publicou seus dois livros Tudo Nela Brilha e Queima e Jamais Peço Desculpas por Me Derramar pela Editora Planeta. O escritor Sérgio Vaz está na editora Global desde o ano de 2007 e a escritora, editora e poeta Elizandra Souza, depois de diversos livros independentes também publicou pela editora Global em 2024 o livro Filha do Fogo.
“Com o aparecimento dos Saraus tal qual os conhecemos hoje, percebo que houve um boom de pessoas leitoras e autorias periféricas. Acredito que ainda não se lê tanto quanto se poderia, até porque livros são caros no Brasil, mas o contato com a oralidade e a escuta de poemas nos saraus formou uma geração que lê mais sim - seja por vontade própria, seja por tabela, ou (por osmose literária…)," acredita a escritora e pesquisadora Dinha.
A poeta e escritora Rosana Venturini, autora do livro Tem Mar Revolto nos Meus Olhos, chegou do interior do Estado do Rio Grande do Sul há por volta de três anos e se encantou com o cenário da poesia periférica.
Depois de um período turbulento em suas vidas com o casamento e problemas familiares, sentindo-se perdida, sozinha e frágil, necessitava de um canal de fala e auto-cura. Começou a ter contato com textos de autores periféricos de São Paulo e outras regiões, percebendo a potência da poesia como instrumento de libertação. A literatura periférica era diferente do que estava acostumada a ler, "era concreta, real e sem tantas regras de escrita e estética”.

Incentivada por alguns autores e depois amigos, começou a colocar suas dores no papel e transformá-las em poesia. “Eu ando por todas as vias, a poesia voa e deve ocupar todos os espaços, mas me identifico e circulo mais em eventos periféricos, primeiro por que sou periférica moradora da zona leste, então a própria identificação com as pessoas dessas regiões, as mesmas lutas, mesmas angústias e o mesmo canal de fala, fazendo das dores alguma arte”.
Para ela, essa é uma outra característica marcante dos saraus da periferia, o acolhimento e a coletividade. “Literatura potente, pessoas comuns com muitas histórias de superação e resistência. Ali é a terapia da vida real”, afirma Rosana, que vem se destacando no no circuito periférico com a força de seus poemas.
Já José Sarmento é otimista quanto ao futuro da literatura periférica. Ele acredita que ela ainda será mais lida que a literatura "burguesa" ou não-periférica. "Ela tem um caráter mais civilizatório e emergencial, gritando por igualdade de direitos", aposta.
Deguste o melhor da literatura periférica Conheça alguns autores da atualidade que vem se destacando na cena periférica Dinha, editora, pesquisadora e autora de dez livros, entre eles: De passagem mas não a passeio (2006), Zero a Zero - 15 poemas contra o genocídio da população negra (2015), Maria do Povo (2019), e seu recente lançamento Dominó de Ossos: pequenas memórias de horror (2025). José Sarmento, autor de mais de 13 livros e dois e-books. Entre eles A Revolução dos Corvos, Vazante de Lá e Cá, e Encarniçados: A poética do Caos. Jaiane Conceição, autora. Estreando seu primeiro livro sólo na Me Parió Revolução com o livro de contos Dormindo com Ratos, com textos a partir de olhar de uma criança vítima de diversos abusos e violências na cidade de São Paulo. Sacolinha, autor de diversos livros: romances, contos e crônicas e gestor de projetos de incentivo à leitura, entre eles Dente-de-leão, a sustentável leveza do ser (Ed. Vasto Mundo) Almerio Barbosa, autor de cinco livros, especialmente livros voltados para temáticas periféricas e abordagens políticas, entre eles o livro Manipulações contra a Periferia (Editora Terra Redonda) Benedita Creuza de Andrade, escritora e ativista política. Escreveu o contundente livro de ensaios Miltância na Periferia: Histórias e personagens de cinco décadas de lutas na Região Sudeste da cidade de São Paulo. |




















Belo artigo Mariana. Muito agradável de ler e feliz em conhecer um pouco mais sobre a história e evolução da literatura marginal. Parabéns pela iniciativa.
Parabéns pelo ótimo artigo.
Você procurou dar espaço para novos autores e Editoras. Gostei muito da lucidez e organização do texto.
Falar de literatura marginal é dizer ao mundo que o escrever e o ser ouvido, percebido no campo das idéias nas muitas e mais diversas periferias é possível.
escrever
Não é por falar nada não. Mas mencionar literatura marginal, e não colocar nem uma pauta sobre Germano Gonçalves, e Sarau Urbanista Concreto é um pecado. Germano Gonçalves tem como parceiros desde os anos 90 Ferrez, Sérgio vaz, Emerson Alcade, Alessandro Buzo, Zinho Trindade, Sacolinha, Akira, Tubarão do Lixo, Rodrigo Ciriaco, Binho, Lilian Guerra, Elizandra Souza, Erica Peçanha, Mel Duarte, Jessica Balbino dentre tantas e tantos outros. E realiza o sarau Urbanista Concreto a mais de 13 anos na periferia de São Paulo Zona Leste. É autor de obras engajada na literatura marginal, periférica divergente como: O ex-excluído (poesias) marginal, Contos Marginais e outros ensaios contos periféricos, e ainda uma obra intitulada Literatura Marginal - arte na periferia (ensaio social…
Que resgate da história da literatura periférica. Parabéns, Mari 👏🏿 👏🏿.
Um texto fundamental e que deve ser compartilhado,como vou fazer agora. Importantes nomes, momentos e histórias significativas. Muito bom!