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Matéria - "A Cultura é o trabalho mais político que existe”, afirma o autor de Cidade de Deus

Atualizado: 5 de fev.

E foi neste domingo que resolvi dos muros imaginários e conhecer mais da cultura das periferias de São Paulo.


O meu incômodo sobre a falta de diversidade que podemos viver caso não cruzemos nossos territórios começou a ficar mais intenso de um tempo para cá.




Como podemos falar de transformação, de escolha do voto, de resistência cultural, se não conseguimos sair da minha própria classe social ou do meu bairro de “Oslo”, termo utilizado pelo pesquisador Jessé de Souza referindo-se a uma classe média que não enxerga as diferenças sociais do país e acha que vive na capital da Noruega, onde a renda per capita é alta e a maioria das pessoas têm uma renda satisfatória e ótima qualidade de vida.

Resolvi bater perna. E através do maravilhoso blog do Arnaldo Afonso “Sarau, Luau e o Escambau”, que aborda tão bem as manifestações que acontecem à margem da Indústria Cultural, me informei sobre a 10. mostra cultural da Cooperifa. Como não tinha visto isso antes? Nada menos do que os escritores Paulo Lins (Cidade de Deus e Desde que o Samba é Samba) e Marcelino Freire (Angu de Sangue e Contos Negreiros), palestrariam sobre a “Literatura como fonte de inspiração para outras artes” na Fábrica de Cultura Jardim São Luís. E fechando a noite com o maravilhoso artista nordestino Gero Camilo homenageando Belchior. Tudo bem. Quase não saiu nos jornais.




Guerra cultural “Esta matança indiscriminada dos jovens da periferia é acima de tudo uma guerra cultural”, começa Paulo Lins em um bate-papo com Marcelino Freire.

“Quando você fala que o Exu é o Diabo, você está destruindo a autoestima de um grupo. Ninguém vai substituir Machado de Assis nem Cristo vai substituir São Jorge. Você não pode substituir um Deus em relação ao outro”, completa. Afinal, indica ele, mata-se a cultura de um povo para dominar melhor.

Relembrando o momento em que escreveu Cidade de Deus, motivado especialmente por se deparar a uma realidade em que a maioria de seus amigos foram assassinados, o artista enfatiza a importância da revolução cultural. “Quando você vai nas comunidades discutir cultura e literatura, é o trabalho mais político que você possa fazer. Não existe outra forma de falar sobre racismo, homofobia, discriminação, que não seja através da cultura”.

Após sair da Cooperifa, apesar do desânimo geral pelo momento político que vive o país, acredito que é através dos movimentos culturais da periferia onde é possível encontrar forças para acreditar. Gente forte, engajada, acreditando, estudando, se “empoderando”, dançando, fazendo arte. Eu era ali a única jornalista. Me senti representando a classe. O alimento está ali. Que cruzemos mais as pontes e os preconceitos de nossa existência porque apenas de discursos intelectuais regados por boemias na Vila Madalena não se altera uma escravidão que, embora modernizada, comemora seus mais de 500 anos de vida.


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