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Marielle, presente (e muito, também na Europa)

Artigo Por Luiz Valério de Paula Trindade, de Torino (Itália)


É muito significativo e também gratificante observar como a memória e o legado deixado por Marielle Franco continuam vivos e muito fortes não só no Brasil mas também fora dele. Seu nome adquiriu uma dimensão imensa, reverbera com muita força no exterior, é tratado sempre com muito respeito e objeto crescente de estudos e publicações em diversos idiomas.


Torino, norte da Itália, encravada em uma das regiões mais prósperas e elitistas do país. Lugar bastante simbólico também para se debater ‘lugar de fala’ e privilégios. Pois foi isso o que aconteceu na quinta-feira, 08 de outubro.


Organizado pela Livraria Belgravia e a editora Capovolte, debateu-se Marielle Franco e o livro ‘Lugar de Fala’ (edição em italiano do livro de autoria da filósofa Djamila Ribeiro e lançado pela editora Capovolte).

 jovem ativista brasileira Priscila Cardoso, a jornalista italiana Agnese Gazzera autora de Marielle Presente e a antropóloga italiana Silvia Stefani.
A brasileira Priscila Cardoso, (esquerda), a jornalista Agnese Gazzera (autora de Marielle, Presente), e Silvia Stefani.

Mediada pela antropóloga italiana Silvia Stefani, o debate contou também com a presença da jornalista italiana Agnese Gazzera (autora do ‘Marielle, Presente’ em italiano) e da ativista brasileira Priscila Cardoso, radicada na Itália há dois anos.


A palestra ocorreu ao ar livre em frente à livraria devido a restrições por conta do COVID-19 para uma plateia de pouco mais de 30 pessoas formada predominantemente por italianos. Todos magnetizados com o tema, interessados em saber mais, em conhecer mais sobre Marielle.


Além disso, fomos agraciados com alguns solos de chorinho tocados por um jovem violista italiano na abertura e no encerramento dos debates.


Enquanto assistia à palestra, me ocorreu um pensamento de que, quem quer que seja que tenha mandado matá-la, mal podia imaginar que, ao invés de eliminá-la, estava na verdade a eternizando.


Além disso, me ocorreu também a ideia de que a Marielle se tornou uma espécie de Chico Mendes. Digo isso no sentido de que, enquanto no Brasil, estes dois importantes agentes sociais foram ignorados, diminuídos em vida e brutalmente assasinados, fora do país, eles são respeitados, estudados e admirados como importantes agentes de mudança social. Aliás, de mudança não, mas sim de profundas transformações sociais.


Entre os diversos pontos interessantes trazidos pelas palestrantes, destaco três em particular:


A ativista brasileira Priscila Cardoso leu um relato muito profundo sobre sua experiência interseccional de mulher negra, e imigrante em um país europeu. Ela diz que estes elementos compõem um cenário bastante desafiador para ela, sobretudo porque a sociedade tenta invisibilizar pessoas negras e/ou estigmatizá-los. No entanto, ela está buscando seu espaço e abrindo seus caminhos.


Com relação à antropóloga Silvia Stefani, chamou muito a atenção da plateia italiana um comentário que ela relatou ter ouvido em Cabo Verde enquanto conduzia entrevistas com residentes para sua pesquisa de campo.


Um dos entrevistados lhe disse que ficou muito surpreso quando teve a oportunidade de viajar para o Brasil e notar que também existem negros, pois assistindo às novelas brasileiras na TV em seu país, ele pensava que o Brasil era formado unicamente por pessoas brancas.


A jornalista Agnese Gazzera não conheceu a Marielle pessoalmente. Ela esteve no Brasil por volta de quatro meses após o assassinato e entrevistou diversas pessoas do círculo próximo da Marielle para escrever o livro. Contudo, o que nos chamou mais atenção em sua fala foi de que ela tem clara noção de seu lugar de fala privilegiada de mulher branca, europeia de classe média. Inclusive, durante todo decorrer da palestra ficou muito clara a intersecção entre os dois livros justamente porque ambos tratam de lugar fala, sobretudo de mulheres negras.


Então, segundo a jornalista, o livro não narra a história da Marielle a partir de seu ponto de vista de privilégio, mas sim procura dar voz às pessoas que fazem parte do círculo dela, de tal forma que eles(as) são os protagonistas da narrativa e não a jornalista.


Por fim, ao término do evento, observando as expressões das pessoas e interagindo com algumas delas, ficou claro que todos saíram bastante satisfeitos e seguros de não somente terem aprendido mais sobre o Brasil, mas principalmente por terem levado um pouco do espírito guerreiro de Marielle com eles.



* Luiz Valério de Paula Trindade é doutor em Sociologia pela University of Southampton (Inglaterra). Seus trabalhos têm sido publicados em Alceu; Canadian Journal of Latin American and Caribbean Studies; Comunicação, Mídia & Consumo, Discover Society; Ethnic and Racial Studies; International Network for Hate Studies; Social Science Space; The Conversation; entre muitos outros.


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