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Crônica - Rugas que não envelhecem

Esses dias tivemos que nos encarar. Estávamos de mau. Não queríamos saber de jeito nenhum uma das outras. Eu e as tais rugas (hunpf!). Não queria de jeito algum falar com elas e disputarmos o mesmo espaço. Eu me dei de encontro com elas e tivemos que ter uma conversa. Na verdade um bate-papo, umas boas risadas, uma troca de ideias, uma discussão da relação (argh!). A verdade é que há tempos tenho tentado evitá-las.


Quando enfim sentamos em frente uma das outras, elas começaram a narrar muitas histórias bonitas, e sabe que eu comecei a achá-las simpáticas? Até bonitinhas?


Me contaram uma porção de causos interessantes e disseram-me que foram cultivadas ao som de gargalhadas largas, embaixo de muito sol vivido, muita vida tomada, muita melanina queimada.


Disseram-me que não são rugas de preocupação, de raiva. Tudo bem, vai. Elas também já passaram por poucas e boas, já ficaram putas da vida, xingaram, sofreram, até choraram. Tiveram medo e preocupação com os boletos. E já se sentiram muito sozinhas. “Não somos de ferro, afinal. Quanta gente tenta nos evitar", me contaram. 


Foram tantas histórias que passamos horas proseando, e no final ficamos colegas, quase amigas. Ainda olho-as com desconfiança. Suas aparências me causam medo, estranhamento. Mas elas são altivas, e ao mesmo tempo leves, divertidas. Elas são muito sábias, aprenderam muito com a vida e sabem rir e tirar proveito das situações. Me contaram que quando a coisa aperta, aprenderam a meditar. E esperar. “O tempo é seu bom amigo”, me ensinaram. Elas são excelentes professoras. E pediram para que eu não tenha medo delas.

Elas me disseram que são rugas que não envelhecem.

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