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Colômbia, lado B

Atualizado: 14 de mai.

Bastidores da minha viagem para Bogotá – entre as problemáticas do meio ambiente, “desplazamentos”, refúgios, salsa e vallenato

por Mariana Vilela



Há quase dez dias depois da minha volta da Colômbia e fazer um mergulho na capital do país, consegui colocar pra fora as vivências e contar um pouco aqui no Blog JornalistaHumanista um pouco das emoções, contradições e realidade social.


Lá estive hospedada na casa da querida Alma Esperanza, historiadora e filha da Maria Carmen e neta da “abuelita”. Uma casa acolhedora que fica na região sul de Bogotá, uma cidade toda dividida por regiões, como se fossem “estratificações sociais”, segundo me comentou Alma, de forma que a região norte seria a região mais nobre da cidade.


Como qualquer capital do mundo, poluição, trânsito, transporte público abarrotado de gente tentando pegar o seu lugar no vagão, inclusive com muita gente passando por cima das catracas e tentando colocar-se junto a outras pessoas para não ter que pagar o valor de 3500 pesos colombianos, o que equivaleria ao valor de R$ 4,60, em média. Um retrato da desigualdade social.


O que torna especialmente charmosa a cidade são as montanhas que rodeiam a cidade, de forma que as avistamos por quase todas as partes da capital. Os prédios ainda não chegam aos arranha-céus opulentos como os de São Paulo, o que ainda nos permite uma vista agradável da paisagem.


Ao chegar no aeroporto de El Dorado, Alma nos recebeu de taxi. Era final de tarde, então levamos um bom tempo para chegar em casa, pois o trânsito era intenso. O que nos permitiu escutar uma boa salsa e um emocionado vallenato, gênero musical oriundo da região do caribe colombiano, e também nos inteirar da situação do momento: a população estava fazendo racionamento de água.


Depois que me informei sobre o que se passava, compreendi que as reservas de água estavam abaixo do nível, não chovia há tempos e há contaminação dos rios. Até então, era só informação, mas o corpo sentiu o efeito com uma forte diarréia devido a ingestão provável de água contaminada. Eu só bebia água filtrada, mas usávamos a água da torneira para cozinhar, e isso já foi suficiente para fazer um estrago estomacal tanto em mim quanto na minha amiga que me acompanhava.


Após alguns estudos e visitas em exposição, entendemos a urgência da questão climática na Colômbia, pois o país é totalmente dependente das chuvas da Amazônia a qual abarca - quase a metade do país está localizada na região. Os rios, especialmente o Rio Magdalena (que está entre os dez rios em que mais se atravessam sedimentos naturais) e que atravessa toda a extensão da Colômbia, é um rio que depende também desta abundância das águas da selva, e está sendo ameaçado por diversas atividades exploratórias ao longo de vários anos desde a colonização: contaminação das águas pelo garimpo, expansão das atividades de pecuária em locais indevidos e cultivos agroindustriais, superexploração das terras, reprodução excessiva da população de hipopótamos trazidos por Pablo Escobar na década de 80 (Pasmem!), devastação das florestas, inundação de territórios devido a construção de Usinas Hidrelétricas, entre outras causas diversas.


Para conhecer mais sobre os problemas do Rio Magdalena, neste link é possível compreender um pouco do conteúdo da Exposição apresentada nas bibliotecas da cidade


Passados estes tempos, fui me inteirando um pouco sobre a cidade e aprendi a usar o transporte público, uma espécie de metrô de superfície da cidade chamada transmilênio. Conheci muitos colombianos assim, pedindo ajuda para chegar ao meu destino, e a maioria deles foi muito solícita e amigável. No mesmo transmilênio, também tive uma visão sobre a realidade social do país.  



Praça Simon Bolívar, no centro de Bogotá


Imigração Venezuelana

A imigração venezuelana é uma das questões enfrentadas pelo governo colombiano. Estima-se que há mais de 2,8 milhões de venezuelanos vivendo na Colômbia, das mais diversas maneiras. No transmilênio, escutei um rap venezuelano, “menos um indigente”, jovens que fizeram poesia ritmada e cantam nas ruas seus lemas, "estou fazendo poesia e assim sou menos um indigente/ sinto falta da comida de minha mãe/ meu avô morreu e não pude visitá-lo..." (Um pouco da tradução do rap no Transmilênio).


Este governo atual, de Gustavo Petro, trata-se do primeiro governo da Colômbia de esquerda. Isto muda toda uma lógica de compreensão e fazer política no país, inclusive a questão do entendimento sobre os imigrantes ou refugiados venezuelanos, governo este que ainda teme um golpe de Estado por vias institucionais. Com um congresso conservador e em grande parte contrária às diretrizes executivas, governar na Colômbia tem se mostrado um grande desafio para o presidente Petro, que também tem origens campesinas.


Começando pela grande imprensa majoritária, que estava acostumada com governos de direita e agora faz uma linha mais investigativa e crítica do que nunca. Em palestra que assisti sobre Jornalismo em primeiro governo de esquerda, os jornalistas disseram que nunca a mídia “fez tão bem o seu papel”. O que quer dizer que ela deixava de ser crítica em outras momentos e agora está fazendo uma linha mais dura e atenta. Ou seja, uma imprensa que sempre esteve a favor dos grandes grupos de poder.


Cobrindo a FILBo, a Feira Internacional de Livros de Bogotá


A FILBo tinha com tema Lee la Naturaleza. Achei bastante assertivo o tema, um alerta para a questão do clima, dos povos originários, da Amazônia em risco, dos rios poluídos. Toda uma feira voltada para esta temática, apresentando toda a biodiversidade e as riquezas culturais da Colômbia por meio da literatura. Inclusive assisti uma palestra muito interessante sobre o impacto ambiental na produção dos livros. Sim, os livros também impactam o meio ambiente, seja devido a matéria-prima originária, na maioria na produção de eucalipto ou árvores para a produção de papel, no impacto de uso das águas nesta produção, no processo de impressão e nas embalagens dos livros, usando plástico na sua grande maioria. Neste link conto um pouco mais sobre a palestra que assisti. Não era Opinião, foi o que assisti na palestra.


Filbo 2024

A Feira teve como homenageada o Brasil, País convidado de honra, que por sua vez também demonstrou toda a sua diversidade cultural, extensão territorial, seus biomas e suas manifestações por meio das artes, da fotografia e da literatura. Bem como suas contradições.


O presidente Lula esteve na inauguração do evento ao lado do Presidente Petro, para tratar de negócios bem como da parceria cultural. E que agora, inclusive, o Brasil vai homenagear a Colômbia na Bienal do Livro de São Paulo. Junto a Lula, foi simbólica o discurso da escritora Luciany Aparecida, autora de entre outros livros, o romance Mata Doce (Alfaguara).


Lula destacou a importância de escritores de origem de vulnerabilidade social que agora ocupam seu protanonismo na literatura. “Uma mulher como eu, que tem origem de vulnerabilidade social, chegar até aqui, na comitiva de autores brasileiras, em minha primeira viagem internacional, é revolucionário”, afirmou Luciany Aparecida em discurso emocionado, uma autora que aborda na sua literatura a região do charco baiano, a oralidade e as sabedorias ancestrais de seus avôs e avós, e a força das mulheres da região.


O Ciclo Afro, que também aconteceu durante a FIlbo, foi outra realização muito importante, que também tinha objetivo de reestabelecer as pontes entre os países da América Latina por meio da literatura na compreensão do racismo institucional, sobre as políticas públicas existentes nos países, suas similaridades e também suas diferenças no Brasil e na Colômbia.

Organizado por Marcos Ramos, professor da Universidade Nacional da Colômbia, o Ciclo teve duração de uma semana e reuniu diversas autoridades dos dois países para fortalecer esses laços e fazer uma retrospectiva multidisciplinar e analisar as perspectivas para o futuro: na academia, na religiosidade, na música, nas pautas sobre gênero, nas artes, na educação, na literatura em geral.



escritoras brasileiras no pavilhão brasileiro durante a FILbo

Campesinato e uma população Desplazada

Procurei compreender um pouco o significado desta palavra “desplazado”. A tradução literal aponta a palavra deslocado. O que é um eufemismo para uma população expulsa de suas terras por diferentes vias. E os descendentes dos campesinos, filhos e netos dos campesinos são uma realidade que se locomove na cidade em busca de emprego e trabalhando com altas jornadas e pouco descanso. Conheci vários deles e todos me contaram a realidade de suas famílias que vão sendo expulsas de tempos em tempos de suas terras, seja pela violência das Farc, para o narcotráfico e para os militares ou “supermilitares”.

Um rapaz chamado xxx vivia na costa com a sua família, na região de Tumaco, uma família de pescadores. Foi extorquida pela guerrilha, era obrigada a pagar uma parte de sua produção para os narcos e, depois, os ultra ou “supramilitares” tomaram suas terras. “Se não saímos, morremos”, me contou ele. Assim tem sido a realidade de várias dessas pessoas.


Fico me perguntando, o que temos e comum e que lição posso tirar de toda esta experiência como escritora e jornalista presente na Feira Internacional dos Livros de Bogotá? Como disseram a maioria das palestras da Filbo, a colonização europeia ( no caso da Colômbia, a colonização espanhola) foi um grande mal que assolou os países da América Latina, o que traz consequências que condena suas populações à grande desigualdade, com dizimação dos povos indígenas, exploração de suas riquezas e suas diversidades, aculturação pela língua e pela cultura, além do descaso relegado a pessoas negras africanas capturadas que ainda sofrem a consequência da escravidão somada às outras violências locais.


A esperança que corre é ver uma Feira do livro como a FILbo demonstrando a sua potência, colocando à tona a realidade e suas compreensões à sua população e em nível internacional, além de reestabelecer as pontes entre os países latino-americanos na tentativa de conquistar uma nova soberania por via da Amazônia, das suas biodiversidades  e suas riquezas culturais. Que assim seja.

 


Mariana Vilela é jornalista e escritora, autora do romance Compulsão de Clarisse

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